ADMINISTRAÇÃO APOSTÓLICA

A PIA UNIÃO DAS FILHAS DE MARIA

A PIA UNIÃO DAS FILHAS DE MARIA
ORIGEM E FINALIDADE DA PIA UNIÃO DAS FILHAS DE MARIA

 “Quem me encontrar, diz Maria, encontrará a vida da graça nesta terra e a salvação eterna no Paraíso”[1]. Destas palavras tão meigas e suaves, que a Igreja põe nos lábios da carinhosa Mãe dos cristãos, bem claro se deduz o fim santo da Pia União das Filhas de Maria. Porquanto esta não só se dirige a infiltrar no coração das donzelas cristãs uma devoção particular para com a Mãe de Deus, mas tende, ainda, a torná-las fiéis e diligentes imitadoras das suas santas virtudes, no que consiste a verdadeira e sólida piedade para com ela.

Em um século em que tudo é corrupção e mentira, em que a Religião é desprezada, a piedade escarnecida, a virtude ludibriada e a moral inteiramente esquecida, foi certamente ótima empresa a de tutelar a inocência das donzelas, pondo-as desde os mais tenros anos sob a égide poderosíssima da augusta Rainha dos céus. Não há que duvidar: os ímpios não se cansam de lançar mão de todos os meios para arrastar à desordem dos vícios a mocidade incauta de ambos os sexos; porém maiores são os esforços que empregam contra o mais fraco, por ser de mais fácil alcance e mais adaptado para conseguir os seus diabólicos desígnios. Daí esses vários e ridículos trajes, esse desordenado amor às vaidades, ao luxo, aos teatros, aos bailes e outros divertimentos perigosíssimos; daí essa propaganda infrene de maus livros, de romances licenciosos, em que a moral e a Religião sofrem os maiores golpes; daí essas escolas de pestilência, onde o erro se insinua sob a máscara da hipocrisia, onde se aprende a desprezar e ludibriar as coisas mais sagradas da nossa Religião; escolas onde se ensina a enervar o coração das meninas, em vez de fortificá-lo por meio de virtudes sólidas e cristãs.

Ora, em meio de tantas ciladas, quem amparará essas almas inocentes, para que não se precipitem na torrente impetuosa das seduções? Quem as preservará dos terríveis efeitos do orgulho e da presunção, para que não sucumbam no plano inclinado das lisonjas? Eis, pois, a necessidade de uma mão que benigna as levante quando caírem, que as ampare quando se mostrarem fracas, que as fortifique, se tímidas caminham na senda escabrosa da virtude. Eis a necessidade de um escudo que as abrigue contra os assaltos de tantos e tão ferozes inimigos, e de uma espada que os afugente. Eis, pois, a necessidade de uma advogada poderosa para debelar os embates de uma carne rebelde e os atrativos de um mundo lisonjeiro e mentiroso. E é o que conseguirão essas almas cândidas agregando-se espontaneamente à Pia União das Filhas de Maria. Porquanto, se ela tem sido chamada escudo, diadema e arrimo da Igreja, não deixará certamente indefesas as suas prediletas filhas. E estas então, fortalecidas na proteção de tão poderosa Mãe, sem dúvida prevalecerão contra os seus adversários e inimigos de Deus. Demais, assim como se recebe uma coisa, com tanta melhor vontade, quanto maior for o conhecimento que se tem dos seus méritos, assim julgamos necessários expor no princípio deste Manual algumas notícias sobre a origem, progressos e fins da Pia União das Filhas de Maria.

Origem e progresso da Pia União das Filhas de Maria

A Pia União das Filhas de Maria tira a sua origem da Ordem dos Cônegos regulares. Foi, de fato, nos princípios do século XII, que o Beato Pedro de Honestis, Cônego regular, que por humildade, se chamava o pecador, instituiu na nossa Igreja de Santa Maria, em Porto de Ravena, a Pia União dos Filhos e das Filhas de Maria, que, além da santa medalha pendente do pescoço, traziam à cintura uma faixa azul. No decorrer dos anos de 1594 a 1640, um outro Cônego regular, o Beato Pedro Furier, erigiu na sua paróquia de Mattaincourt, na França, a Congregação da Virgem Imaculada para as suas jovens paroquianas. Esta salutar e santa instituição foi mais tarde no nosso século, reavivada em França, nas escolas das Irmãs de Caridade, por Mr. Etienne, Superior geral dos Padres da Missão, e depois propagada por muitos sacerdotes zelosos, principalmente na Itália, nas paróquias, nas casas de educação e nas escolas de meninas.

Onde, porém, teve esta Pia União o seu pleno desenvolvimento e complemento, foi na paróquia de Santa Inez, extra-muros de Roma, pois que aí, em 1864, sobre o túmulo da ínclita Virgenzinha, foi ela, por cuidado do Ver. P. Ab. Passéri canonicamente erigida com regras e Manual aprovado pela Autoridade eclesiástica, com o novo título de: Pia União das Filhas de Maria, sob o patrocínio da Virgem Imaculada e de Santa Inez, virgem e mártir.

Esta Pia União, assim ereta, foi enriquecida com muitas indulgências e privilégios pelo Breve de 16 de Janeiro de 1866, concedido por Sua Santidade Pio XI, de Santa memória, o qual mais tarde, pelo Breve de 16 de Fevereiro, a elevou à dignidade de primaria, concedendo ao pároco de Santa Inez, e depois, pelo Breve de 4 de Fevereiro de 1870, ao abade geral pro tempore dos Cônegos regulares de Latrão, a faculdade de agregar todas as outras eretas, ou a erigir em qualquer parte do mundo, e de lhes comunicar as indulgências e os privilégios de que goza a mesma Primária.

Também o saudoso Pontífice Leão XIII quis beneficiar a dita Primária, pelos dois Breves de 21 de Março de 1879. No primeiro concedia indulgência plenária às associadas, no dia em que fossem admitidas na Pia União das Filhas de Maria; no segundo, declarando benignamente o P. Abade D. Alberto Passeri, instituído diretor geral de todas as Congregações das Filhas de Maria, sob o patrocínio da Virgem Imaculada e de Santa Inez, virgem e mártir, concedida ao mesmo a faculdade de benzer em qualquer Pia União, as piedosas medalhas que as associadas costumam trazer ao pescoço, como sinal da Congregação a que pertencem, com a aplicação da indulgência plenária in articulo mortis e de delegar tal faculdade naqueles sacerdotes que lhe pedissem, e fossem convidados por ele ou por outros diretores a receberem na Pia União as Aspirantes e as Filhas de Maria[2]. Eis aqui em poucas palavras a origem e o progresso desta Congregação.

Fins e vantagens da Pia União

1. O fim da Pia União das Filhas de Maria além de consistir na promoção da maior glória de Deus e do aumento da devoção para com a Virgem Imaculada, consiste, também, em proteger a inocência das jovens, em defender a sua tenra idade do pestífero contágio do mundo, e em levá-las, por meio de conselhos e de práticas religiosas, ao exato cumprimento dos deveres que têm a cumprir para com Deus, para com o próximo e para consigo mesma; e, ainda, levá-las à consecução de uma sólida virtude cristã, sob a guarda fidelíssima da Imaculada Rainha do Céu, e segundo os luminosos exemplos da jovem mártir Santa Inez.

Em suma, o fim desta Pia União, não consiste em encher o mundo de freiras, como a cada passo dizem os inimigos do bem, mas em fazer crescer as jovens na piedade cristã, na honestidade dos costumes, em torná-las obedientes e respeitosas para com seus pais, afim de que um dia, segundo o estado a que forem chamados por Deus, possam ser ou esposas fiéis e ótimas mães de família no século, ou esposas do Senhor no claustro, ou ainda castas donzelas no meio do mundo, no seio das suas famílias, servindo aí, como flores ilibadas, de exemplo a todos na piedade e na virtude.

A Pia União das Filhas de Maria deseja que cada associada, seguindo as inspirações divinas, ouvindo a voz da sua consciência, vendo a inclinação do seu coração, consultados o seu confessor e seus pais, quando eles são como devem ser, segundo o espírito de Deus, estude com o maior cuidado a sua vocação, para a seguir. Ela deseja se procure conhecer a vocação refreando as paixões e frequentando os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, e não nos passatempos perigosos, no meio dos desvarios da juventude, dando largas às suas naturais inclinações.

Ela quer formar religiosas com verdadeiro espírito de pureza, de caridade, de abnegação e humildade, com verdadeira vocação; filhas delicadíssimas a seus pais e esposas verdadeiramente cristãs, que fomentem em suas casas o amor, a virtude e a piedade, e eduquem os seus filhos no santo temor de Deus.

2. Dificílimo seria enumerar todas as vantagens que destas Pia Uniões resultam, não só para as famílias, mas, ainda, para a sociedade inteira. Quem poderá, na verdade, negar a consolação que as boas filhas da Virgem dão, como mostra a experiência, aos seus pais, pela sua obediência e pela sua diligência no cumprimento dos seus deveres domésticos? Quem poderá desconhecer o bem que elas fazem às povoações, principalmente à juventude, quer com a sua modéstia, com a sua piedade e devoção, quer com a frequência dos sacramentos e assistência às funções religiosas? Oh! Basta ver um só ajuntamento destas jovens para se formar uma justa ideia do bem que por toda a parte produzem estas Pias Uniões! Por isso será suficiente dar uma simples resenha de algumas das principais vantagens que daí podem colher as jovens que nelas se inscrevem.

E, principalmente, se a Santíssima Virgem é a Mãe de todos os cristãos, se sobre todos Ela lança olhares misericordiosos e a todos dispensa a mãos largas, as graças celestes, com quanta maior razão não se mostrará afetuosa para com aqueles corações juvenis que a Ela se consagram por um culto particular?

Além disso, ensina-nos Jesus Cristo no seu Evangelho que, quando duas ou três pessoas se reúnem em seu nome em seu nome, ele está no meio delas. Ora, essa união que entre si fazem as jovens inscritas para honrarem a Mãe de Deus, não será uma reunião em nome do seu divino Filho? Estejam, pois, certas de que as suas reuniões são favorecidas com a especial proteção do divino Mestre, e com as bênçãos que d’Ele derivam.

Acresce que, em virtude da sua união, todas as associadas participam das boas obras, orações e comunhões que se fazem em todas as congregações unidas à Primária. Ora, quem poderá avaliar as graças e os espirituais auxílios que esta santa comunhão atrai sobre cada uma das associadas? E não será um doce conforto para uma jovem, especialmente nas angústias espirituais e nos trabalhos da vida, o refletir que há no mundo um número quase infinito de companheiras que oram por ela?

Não será uma consolação para o seu espírito desolado, ao achar-se desalentada no meio dos trabalhos ou em qualquer perigo grave, ou combatida por violentas tentações, o lembrar-se que talvez naquele instante algumas das suas irmãs espirituais ore por ela, prostrada por terra, diante do altar da Mãe universal?

Além destas, há outras vantagens incalculáveis, como são: o bom exemplo que reciprocamente dão, o incitamento ao exercício das virtudes, os avisos e as instruções particulares que recebem a Pia União para viverem na pureza dos costumes, como se fossem anjos sobre a terra, e para merecerem a morte preciosa dos justos.

Em confirmação do que avançamos, leiam-se as notícias das várias Pias Uniões e os necrológios insertos no periódico — La Figlia di Maria, que há quarenta e três anos se publica em Roma, como órgão da Primária, e o folheto Um lírio entre espinhos, ou Biografia duma Filha de Maria, editado pela Livraria Católica Portuense.

E estas vantagens da Pia União não se restringem somente à vida presente, mas seguem as associadas além-túmulo; pois que, quando alguma delas é arrebatada pela morte, a Pia União sufraga a sua alma com Missas, com comunhões e com orações em comum.

Finalmente, as Filhas de Maria da Primária e as Filhas de Maria das outras Pias Uniões a ela agregadas, podem lucrar durante o ano muitas indulgências, aplicáveis per modum soffragil pelas almas dos fiéis defuntos.

Do MANUAL DA PIA UNIÃO DAS FILHAS DE MARIA, Capítulos 1 e 2.

[1] Qui me invenerit, inveniet vitam et hauriet salutem a domino.

[2] Estas faculdades foram depois concedidas ao Ver. P. Abade Geral pro tempore, dos Cônegos Regulares Lateranenses, pelo Breve de sua Santidade Leão XIII, de 9 de Junho de 1885.

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