ADMINISTRAÇÃO APOSTÓLICA

SÃO ZACARIAS

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SÃO ZACARIAS

PAI DE SÃO JOÃO BATISTA

(+ século I)

Nos dias do rei tirano Herodes, o Grande, um príncipe idumeu que, auxiliado pelos romanos, usurpou o cetro da Judéia, houve um sacerdote profeta chamado Zacarias. Na Sagrada Escritura encontramos nada menos que quarenta personagens com este nome, que etimologicamente significa: “Jeová se recorda”. Entre eles, aquele que alcançou a maior celebridade é aquele que a Igreja hoje venera, que teve a singular honra de ser pai de João, primo, precursor e “batista” de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para evitar qualquer confusão no exercício das funções sagradas que lhes foram confiadas, David dividiu os sacerdotes em vinte e quatro classes. Estes se revezavam no Serviço e Culto no Templo e desempenhavam suas funções durante uma semana inteira, de sábado a sábado. Zacarias era um simples sacerdote da classe de Abia, a oitava das vinte e quatro classes. Não há evidências conhecidas que permitam atribuir-lhe dignidade pontifícia, como afirmam alguns autores.

Sua esposa, Isabel, também pertencia à família ou linhagem de Aarão. “Ambos os cônjuges”, diz o evangelista São Lucas, “eram justos aos olhos de Deus e guardavam os mandamentos e preceitos do Senhor sem culpa”.

Porém, na opinião do povo, Deus não havia abençoado este casamento, pois, apesar dos muitos anos que se passaram, Isabel não tinha filhos e a esterilidade era considerada uma vergonha entre os judeus. Ambos os esposos suportaram com admirável paciência o opróbrio da opinião pública, porque sabiam bem que Deus estava com eles. Como outras mulheres santas da Bíblia, a quem o Senhor concedeu descendência após repetidas súplicas, Isabel implorou e ofereceu a sua humilhação ao Céu.

APARIÇÃO DO ANJO GABRIEL

No início de cada semana, sacerdotes da mesma classe eram sorteados para os diferentes cargos que exerceriam no Templo. A Providência dispôs que na semana em que fosse a vez da família ou da classe de Abia, coubesse a Zacarias fazer o mais honroso de todos, oferecer a Deus, duas vezes ao dia, de manhã e à tarde, o sacrifício do incenso. Foi o momento escolhido para a manifestação das misericórdias divinas.

Quando chegou a hora da oblação, ele entrou no lugar santo pronto para cumprir suas funções enquanto a multidão se aglomerava no átrio esperando que os instrumentos musicais dessem o sinal habitual para unir suas orações às do sacerdote.

É comum acontecer que o Senhor manifeste seus dons quando os espíritos convergem desta forma para Ele. Assim, na hora da oração e enquanto Zacarias oferecia o sacrifício, apareceu-lhe um Anjo em pé à direita do altar dos perfumes. O sacerdote ficou perturbado quando o viu e encheu-se de santo temor. Disse-lhe o Anjo:

“Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração; tua mulher Isabel te dará um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de gozo e de alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento; porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho nem outra bebida inebriante; será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe; e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. Irá adiante de Deus com o espírito e a fortaleza de Elias, a fim de reconduzir os corações dos pais para os filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto.”

Embora Zacarias não tenha duvidado de que era o Anjo do Senhor quem lhe falava, as coisas que lhe foram prometidas eram tão maravilhosas que, perplexo e até um tanto incrédulo, ousou perguntar: “Como conhecerei isso? Porque eu sou velho, e minha mulher está avançada em anos.”

O Anjo respondeu-lhe: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus; fui enviado para te falar e te dar esta boa nova. Eis que ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas coisas sucedam, visto que não acreditaste nas minhas palavras, que se hão-de cumprir a seu tempo.”

Enquanto isso, o povo estava esperando Zacarias, e admirava-se de ver que ele se demorava tanto tempo no templo. Quando saiu, não lhes podia falar, e compreenderam que tinha tido no templo alguma visão, o que lhes dava a entender por acenos; e ficou mudo.

Zacarias teria gostado de responder, mas, embora tentasse explicar-se com sinais, não conseguiu articular uma palavra e, diante desta novidade, somada ao horror e à confusão que notaram em seu rosto, o povo entendeu que algo grande aconteceu.

NO RETIRO. A ANUNCIAÇÃO A MARIA

Terminada a semana de seu ministério sacerdotal, Zacarias retirou-se para sua casa. Na velhice, Isabel concebeu um filho e ambos os esposos foram para as montanhas, para um lugar chamado hoje Ain Karim, a oeste de Jerusalém, para esconder o segredo do milagre dos olhos dos homens. Naquele retiro, eles deram graças ao Senhor. Durante cinco meses o mundo não teve consciência do favor singular de que tinha sido destinatário.

Depois disso, São Gabriel desceu novamente à terra e apresentou-se à Virgem Maria em Nazaré da Galiléia, anunciando-lhe: “Eis que conceberás em seu ventre e darás à luz um filho, a quem chamarás de Jesus”. Perguntou a humilde donzela: “Como posso ser mãe, tendo resolvido permanecer virgem?” E o Anjo explicou-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, o fruto santo que nascerá de te será chamado Filho de Deus.”

Apesar do caráter maravilhoso desta promessa, Maria não pede nenhum sinal da veracidade de tão surpreendente notícia, mas o Anjo imediatamente lhe dá, dizendo: “Olha que tua parenta Isabel, mesmo na velhice também concebeu um filho; e aquela que foi chamada de estéril será mãe daqui a três meses, porque para Deus nada é impossível.”

Então Maria pronunciou as palavras que serviriam de prelúdio ao acontecimento mais maravilhoso dos séculos, o mistério da Encarnação do Verbo: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.” Poucos dias depois, a excelsa donzela deixou Nazaré e correu para as montanhas de Judá para visitar sua prima Isabel.

NASCIMENTO DO PRECURSOR. O “BENEDICTUS”.

Embora ao descrever a cena da Visitação a Sagrada Escritura não mencione a Zacarias, não há dúvida de que assistiu e compreendeu que a Mãe de Deus viera honrar a sua morada; mas a sua mudez o impediu de juntar suas exclamações com as de Isabel.

Quando chegou a hora do parto, Isabel deu um filho ao mundo. Assim que se espalhou a notícia de tão extraordinário acontecimento, parentes e vizinhos, que desconheciam a predição do Anjo e não conseguiram penetrar no segredo da Visitação, reuniram-se de todos os lados para admirar o prodígio que se cumpriu no nascimento de São João, o Precursor e futuro Batista do Messias, e deram mil felicitações à bendita mãe pela misericórdia que Deus lhe concedeu.

Oito dias depois os familiares reuniram-se, segundo o costume, para assistir à circuncisão do recém-nascido. Nesta cerimônia era imposto um nome ao homem circuncidado, e como de comum acordo queriam chamá-lo de Zacarias, em homenagem ao nome de seu pai, Isabel objetou veementemente: “Não, seu nome será João.” Essa resistência inesperada causou surpresa aos presentes. Então eles responderam: “Você não vê que ninguém na sua família teve esse nome?” Resolveram, portanto, escolher Zacarías como árbitro e ficar satisfeitos com sua decisão. Perguntaram-lhe, por meio de sinais, que nome ele queria que fosse dado à criança, e ele, pedindo a tábua de cera, escreveu nela: “João é o seu nome”.

No mesmo momento a predição do Anjo se cumpriu; ele soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. Este novo prodígio, que se somou às maravilhas anteriores do nascimento milagroso do Batista, encheu de santo temor os participantes, que saíram cheios de respeito pela criança que Deus predestinou de forma tão surpreendente.

Muito em breve a fama de tais acontecimentos se espalharia por toda a região e a glória do futuro Precursor do Messias ecoaria pelas montanhas da Judéia.

Quanto ao santo pai, com a mente iluminada pela luz do Espírito Santo e o coração iluminado pelo fogo divino, na presença dos numerosos parentes que vieram participar das festividades da circuncisão, irrompeu em louvor, cantando o Benedictus, uma bela oração que religiosos e clérigos rezam todos os dias no Ofício Divino:

“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo; e suscitou uma força para nos salvar, na casa de seu servo David, conforme anunciou pela boca dos seus santos, de seus profetas, desde os tempos antigos; que nos livraria de nossos inimigos, e das mãos de todos os que nos odeiam; para exercer a sua misericórdia a favor de nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança, segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão, de nos conceder que, livres das mãos dos nossos inimigos, o sirvamos sem temor, (andando) diante dele com santidade e justiça, durante todos os dias da nossa vida. E tu, menino, serás chamado o profeta do Altíssimo, porque irás adiante da face do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão dos seus pecados, graças à terna misericórdia do nosso Deus, que nos trará do alto a visita do sol nascente, para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte; para dirigir os nossos pés no caminho da paz.”

Parece que cabia ao pai do Batista fazer, na presença do Precursor e provavelmente também da Mãe de Cristo, um resumo ou compêndio de todas as profecias no momento em que o seu cumprimento estava tão próximo, e anunciar a vinda próxima do Messias.

Porque se acredita que a Santíssima Virgem assistiu ao nascimento de João Batista, segundo a opinião autorizada da maioria dos Padres e Doutores da Igreja. Por isso, a iconografia cristã muitas vezes representou a Mãe de Deus com o Precursor nos braços, o que fez São Boaventura dizer: “Nunca uma criança mais bonita teve uma babá mais bela”.

Por ordem do Céu, Zacarias, cujo silêncio havia sido o primeiro indício dos acontecimentos extraordinários que estavam para acontecer, levantaria o véu dos segredos da Providência divina através de um canto divinamente inspirado.

A sua missão já estava cumprida: o Batista apareceu entre os homens e o mundo esperava Cristo, cuja chegada iminente o pai do seu Precursor havia cantado. A partir deste ponto, o Evangelho já não menciona Zacarias e temos que recorrer às tradições populares para completar a história da sua vida.

A MORTE DE ZACARIAS

As versões sobre este ponto são numerosas e bastante variadas nos seus detalhes, e algumas delas não suportam o peso das críticas.

Segundo Orígenes, Zacarias morreu nas mãos dos judeus por ter profetizado a vinda do Salvador; mas a opinião mais difundida no Oriente era a de que ele havia morrido nas mãos de Herodes, por ter salvado o menino João durante a matança dos Inocentes.

Alguns identificaram, sem qualquer prova, o pai do Batista com outro Zacarias, filho de Baraquias, de quem Nosso Senhor disse (Mt 23, 35) que tinha sido morto pelos judeus entre o templo e o altar. Não terão as circunstâncias da morte desta personagem influenciado a opinião dos escritores que narraram a morte do esposo de Santa Isabel?

Das legendas que chegaram até nós, citaremos uma, retirada de um manuscrito árabe e publicada na Acta Sanctorum. Esta é uma história engraçada em que alguns autores acreditaram ter visto, é claro, erroneamente, uma homilia de São João Crisóstomo. Diz assim:

“Nos dias do nascimento de João, o rei Herodes estava decidido a matá-lo e enviou um mensageiro a Zacarias, o pai da criança, para dizer: ‘Dá-me o teu filho João’. Porém, Isabel já havia levado secretamente a criança e fugido com ele para a montanha, porque temia Herodes. Zacarias respondeu ao enviado do rei: ‘Não sei onde está meu filho; sirvo ao Senhor meu Deus e até voltei para minha casa’. Herodes lhe perguntou: ‘Onde escondeste o teu filho? Me dê. Você não sabe que sua vida está em minhas mãos onipotentes?’ Zacarias respondeu: ‘Tão certo como vive o Senhor meu Deus! Não sei onde está meu filho, porque estou dedicado ao serviço do meu Deus e Senhor. Não sei onde meu filho está.’ Fora de si, Herodes ficou cheio de raiva e indignação; a raiva mudou seu semblante e ele ordenou que Zacarias fosse morto enquanto oficiava no altar de Deus. Tendo entrado os enviados, imolaram-no entre o templo e o altar. Mais tarde, Herodes enviou seu exército por toda parte com ordens de capturar o menino João.

Os soldados viram Isabel fugir com o filho pelas montanhas e correram para alcançá-la. Mas ela gritou: ‘Montanha de Deus, abra-te e receba em seu ventre uma mãe injustamente perseguida e o filho de seu ventre’. Assim que estas palavras foram ditas, o Anjo do Senhor apareceu-lhes e colocou-os num lugar seguro dentro da montanha e ali permaneceram escondidos, como se estivessem nos jardins do paraíso, envoltos em uma luz resplandecente. E o Anjo do Senhor habitou com eles. Mas os soldados que presenciaram o prodígio foram contá-lo ao rei… E Herodes encheu-se de medo e renunciou ao desejo de tomar posse da mãe e do filho…

Então o Anjo do Senhor mostrou a Isabel, no interior da montanha, uma fonte de água cristalina e uma grande quantidade de pão e mel silvestre escorrendo de uma rocha. E lhe disse: ‘Não amamente mais o seu filho, nem lhe dê pão para comer, mas alimente-o com mel’. E Isabel obedeceu ao Anjo.

Ela ainda não sabia da morte de Zacarias; e o Anjo do Senhor lhe disse: ‘Isabel!’ E ela respondeu: “Diga, senhor!’ E o Anjo disse: ‘O rei Herodes matou Zacarias, o pai desta criança; então levante-se rápido, leve seu filho e vá para a casa de seu pai e fique lá até que seu filho João cresça.’ Depois deu-lhe um copo cheio de mel silvestre dizendo: ‘Alimente com isto o menino, porque ele está destinado a ser um grande profeta em Israel’. Então ele a ajudou a sair da montanha e lhe mostrou o caminho que ela deveria seguir e ele foi embora. E Isabel foi para a casa de seu pai e educou seu filho como o Anjo do Senhor lhe ordenou.”

AS RELÍQUIAS DE SÃO ZACARIAS

É difícil neste momento discernir a verdade entre o caos de opiniões e notícias mais ou menos fantásticas; para alguns, o corpo de Zacarias foi levado e enterrado pelos Anjos; para outros, ele descansa no vale de Josafá; Sebaste, na Palestina, acredita ter seus restos mortais e os de seu filho Batista no mesmo túmulo; outros, porém, afirmavam estar em Betzacara, perto de Eleuterópolis.

No século V, as relíquias de São Zacarias eram veneradas em Constantinopla, na igreja de São Tiago, perto da Calcopátria; no século XI estavam em Hagia Sophia; a cabeça foi encontrada no final do século XII na capela imperial de Buccaleón. Por sua vez, os albaneses acreditavam ter telas tingidas com o sangue do pai do Batista.

Além das que Roma possui e que mencionaremos mais adiante, as relíquias mais famosas hoje são as guardadas pela cidade de Veneza, que o imperador Leão V doou ao dux Ángel Particiaco no início do século IX; mas não foi esclarecido a qual personalidade de Zacarias correspondem, a saber: o filho de Baraquias ou o esposo de Isabel, uma vez que Constantinopla se orgulhava de possuir as relíquias de ambos os personagens.

A FESTA DE SÃO ZACARÍAS

Nos livros litúrgicos da Igreja Latina, aparece pela primeira vez no Pequeno Martirológio Romano com o título: Comemoração de “Zacarias, profeta, pai de São João Batista”.

Em 11 de dezembro de 1609, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu às religiosas do convento de São Zacarias, em Veneza, um ofício do Santo e designou, aparentemente, a data de 5 de novembro para a sua celebração. No ano de 1706, em 24 de abril, a mesma Sagrada Congregação aprovou para os cônegos da basílica de Santa Maria Maior, em Roma, um “ofício de São Zacarias, de rito semiduplo, que deveria ser celebrado no dia 10 novembro”, pois no dia 5 comemorava-se a transferida festa dos Santos Inocentes. No próprio desta mesma basílica, publicado pouco depois daquele segundo decreto, a festa de São Zacarias foi fixada para 15 de novembro, com este nome: “Festa de São Zacarias, confessor, pai de São João Batista. Semiduplo”.

Os gregos celebram a festa deste santo sacerdote no dia 5 de setembro, assim como os armênios, coptas, russos e abissínios; os jacobitas honram a sua memória juntamente com a de Santa Isabel no dia 16 de dezembro; os siro-maronitas também homenageiam ambos os esposos santos no dia 25 de junho.

Entre os orientais há também outra festa, a da anunciação da natividade de São João Batista, que celebram no dia 23 de setembro e por vezes no dia 27 de setembro.

Por sua vez, os armênios celebram na terça-feira da terceira semana após a Assunção da Santíssima Virgem, a comemoração dos santos profetas Ezequiel, Esdras e “Zacarias, pai de São João Batista”.

O nome de Isabel foi acrescentado ao Martirológio Romano, datado de 5 de novembro, pelo Cardeal Barônio. Hoje ambos aparecem naquele dia.

 (EDELVIVES, El Santo de cada dia: volume 11-12, ano 1946, pp. 51-59)

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